Cinquenta mil mortes numa só estação
Nova investigação estima que 50.391 pessoas morreram por causas relacionadas com o calor em 854 áreas urbanas da Europa durante o verão de 2026. As áreas estudadas abrangem 27 países da União Europeia, mais o Reino Unido, a Noruega e a Suíça, e albergam cerca de 40% da população desses 30 países.
É o maior balanço de verão desde 2000 nas áreas examinadas, e quase o dobro das cerca de 29 mil mortes estimadas para o verão de 2022 e das 28 mil de 2003, o verão que fez das mortes por calor uma questão política europeia.
Dois terços atribuídos ao aquecimento
Combinando métodos de atribuição climática com dados de mortalidade ao nível das cidades e por idade, a equipa atribuiu cerca de dois terços das mortes às alterações climáticas de origem humana. O resto teria ocorrido num mundo sem os gases com efeito de estufa já adicionados à atmosfera.
O verão ficou marcado por recordes repetidos desde maio. Uma onda de calor de 17 de junho a 1 de julho, quando as temperaturas estiveram cerca de 5,3°C acima do normal, foi responsável por cerca de um terço das mortes sazonais só por si. Várias agências nacionais tomaram a medida invulgar de publicar estimativas de mortalidade quase em tempo real durante os piores eventos.
Uma análise complementar no mesmo conjunto de trabalhos estimou 430.365 mortes relacionadas com o calor nas mesmas cidades entre 2000 e 2025, com pouco mais de metade atribuível ao aquecimento de origem humana.
Estimativas modeladas, não certidões de óbito
Os números são estimativas estatísticas, não contagens de certidões que indiquem o calor como causa. Esse método é padrão na área e tende a captar mortes por ataques cardíacos, AVC e insuficiência respiratória que o calor ajudou a desencadear mas não causou oficialmente. Significa também que os totais têm margens de incerteza e serão revistos à medida que chegarem mais dados.
Os autores defendem que o padrão tem uma consequência política: as cidades que acrescentaram centros de arrefecimento, sistemas de alerta precoce e espaço público com sombra depois de 2003 registaram taxas de mortalidade mais baixas em calor comparável, enquanto outras não o fizeram. Apelam a recursos europeus comuns para a adaptação, para que a proteção não dependa do orçamento de um município, a par de cortes contínuos nas emissões.
O seu aviso é simples. O verão acabou, mas a preparação para o próximo não.